Selo Cátedra 10 – Edição 2018

Os critérios de avaliação

Eliana Yunes

Agora sabia: um livro é uma canoa; tivesse livros, faria uma travessia para o outro lado do mundo, o outro lado de si mesmo (Mia Couto)

Há muitos anos lemos literatura infantil em grupos de estudo, às vezes com poucos, outras mais pesquisadores, partilhando as impressões e analisando as obras.

 Em 1968, a convite de Laura Sandroni, comecei a resenhar os lançamentos como uma tarefa voluntária e solitária. Mas logo, com a Ciranda de Livros, no início dos 80, alguns leitores nos associamos a nomes como o de Glória Pondé e Luiz Raul Machado, na organização de um Guia de Leitura.

Desde então, e ao longo dos 90 com o Proler, desencadeado pela Biblioteca Nacional, na gestão de Affonso Romano de Sant’Anna que levantou uma Política de Leitura para o Brasil, com foco na  formação de leitores-mediadores, estivemos em grupos informais, lendo e estudando o gênero, como se pode acompanhar nas publicações do período.

Quando o acervo da BLLIJ da Catedra Unesco de Leitura tomou forma com doações expressivas (2006), a leitura destas obras demandou uma organização que culminou com a pesquisa para curadoria do acervo da nova Biblioteca Pública Estadual, com base na experiência de Lucia Fidalgo, que havia sido sua diretora, na de Nanci Nóbrega e na minha.

Desde este esforço, um pequeno grupo de mestrandos e doutorandos que eu orientava passou a resenhar obras que pudessem ser reconhecidas como de valor para acervos especializados, visando a formação de leitores jovens; nesta fase a coordenação do que seria a BLLIJ digital esteve a cargo de Rosana Kohl. Com sua saída para o depto de Letras em tempo integral, os trabalhos de pesquisa tomaram o rumo do projeto  “Os 1001 livros que toda criança deveria PODER ler”, que  eu coordenava. Esta tarefa, que reúne obras de períodos diversos e autores de diferentes culturas, segue nos ocupando nos meses em que esperamos a chegada das edições do ano a serem lidas para o Selo.

Faz três anos que a decisão de criar o Selo, por ocasião do 10° aniversário da Cátedra, comprometeu-nos   com a formação de um grupo de pesquisa estável, integrado por bibliotecários, teóricos de literatura, designers, ilustradores, educadores e narradores que assinam as resenhas críticas publicadas no site.

Neste ano de 2018, o grupo teve como pesquisadores, Augusto Pessoa, Salmo Dansa, Lucia Fidalgo, Catarina Epprecht, Dinair Fonte, Denise Ramalho, Julia Lima, Francisco Camelo, Nanci Nóbrega, Anna Portella, Luiza Trindade, Marcela Carvalho, Maria Clara Cavalcanti e eu, enquanto responsável pela pesquisa, junto ao CNPq.

Como nos anos anteriores, planejamos uma reflexão em formato de conferencia/ mesa redonda sobre Lobato, que entra em domínio público, mas um imprevisto com o especialista convidado adiou esta reflexão para o mês de abril próximo, quando estaremos lançando o Selo Cátedra 10 de 2019, além de nosso catálogo de obras premiadas, impresso ou digital.

Como se dá nosso trabalho? Todos querem saber.

Com o anúncio da abertura da temporada para a seleção, tem início a recepção das obras publicadas que são distribuídas entre o corpo de leitores em duplas: um membro lerá para escrever a resenha e outro para dialogar com o resenhista em presença de todos os leitores-avaliadores, que podem intervir e comentar, na discussão que se abre. Na eventualidade de conflito nas avaliações, um tertius é chamado à releitura e nova resenha. Assim as obras são apresentadas a todos e uma ata dos debates se registra, com as notações que podem gerar questionamentos e uma análise mais detida: esta situação deflagra o aprofundamento teórico e a leitura de obras de apoio, em geral apresentadas por um convidado visitante.

As reuniões quinzenais decidem se a obra deve ser destacada para futura inclusão entre as premiáveis. Cada pesquisador assume a leitura de no mínimo três obras por quinzena. Usamos três áreas como base para a formulação das cinco linhas de avaliação que elegemos como referências para a leitura analítica, conforme consta da nossa página no site:

  1. estética,

Aqui levamos em conta a originalidade literária, plástica e do projeto gráfico; valoramos a forma e a escritura, além da consistência da proposta no gênero indicado na ficha catalográfica; a qualidade do diálogo entre discurso verbal e discurso visual; o espectro das isotopias de leitura; abertura à participação do leitor em diferentes planos de letramento; provocação à sensibilidade como forma de conhecimento

  1. ética

Consideramos, preferencialmente, a inclusão do ponto de vista do leitor criança ou jovem; o tratamento da temática para a formação de um leitor crítico; a polifonia de vozes e ruptura de horizontes em relação ao lugar comum; ausência de dirigismo pedagogizante e doutrinário; opção por deleitar e não por instruir, secundarizando o  caráter   informativo; a atitude das personagens com relação ao outro e o respeito ao coletivo e ao social

  1. material

Notamos de imediato a qualidade gráfica para resistir ao manuseio; a diagramação e o arejamento  para cativar o olhar no ato de ler; adequação do projeto gráfico à temática e linguagens verbal e visual; qualidade da relação imagem/texto na página; opção tipográfica e acabamento de impressão; originalidade 

Nossa seleção não está balizada por faixa etária, por gênero ou categoria de produção, nem destaca escritores ou ilustradores, – exceto na menção hors concurs que nomeia um autor com reconhecimento amplo, e, no ano, com obra destacável por motivo diverso.

Contudo, há uma atenção para incluir a diversidade de temas e gêneros, e ainda quanto aos formatos e à originalidade de  linguagens. Por outro lado, mesmo levando em conta a diversidade de coleções em grandes editoras, atentamos para os livros de qualidade de pequenas e médias editoras que têm procurado esmerar-se em seus catálogos. E atentar para que as belas traduções não excluam os autores nacionais em ascensão.

Um cuidado relevante a destacar é a atenção para não sobrevalorizar a interação autor-produção-leitor adulto nas muitas obras de excelência que supõem repertório de leituras e conhecimento de amplo acervo na recepção da obra, condição que não pode se esperar de leitores iniciantes. As obras para crianças e jovens, são cada vez mais para todos, tal é o nível de sofisticação leitora de sua elaboração; entretanto é imprescindível que crianças e jovens sejam incluídos como receptores preferenciais.

Paralelamente, por conta da indicação das palavras-chave, vimos discutindo desde o período do Proler, a criação de um Thesaurus em LIJ, orientado por Nanci Nóbrega, sua organizadora técnica e acadêmica. Dia virá em poderemos apresenta-lo aqui.

Após as leituras e resenhas, passamos Francisco e eu à padronização dos textos com ajustes às informações que devem constar de todas elas. O passo seguinte passa ao setor de comunicação visual, com Viviane Moreira e sua equipe de estagiários: com eles nascem as páginas digitais, os vídeos, a divulgação. Entram em circuito Helber Paiva e Maria Helena Ribeiro para viabilizar os troféus. Bárbara e Nádia viabilizam a festa que vocês estão desfrutando, com apoio integral da direção do iiLer.

Por fim, as reflexões registradas nos intimam a partilhar com os que produzem (autores e editores), a LIJ que lemos. Algumas observações podem ajudar na valorização desta produção, tanto no plano acadêmico, quanto no editorial, e sobretudo, favorecer a um maior conhecimento sobre autores, obras e técnicas de suas linguagens. Denise Ramalho, coordenadora executiva do Selo, ao lado de Francisco Camelo que secretaria as reuniões do GELIJ, traz em seguida estas notícias.

Em nome de todos do GELIJ e da Direção que apoia o SELO Cátedra 10, reitero os agradecimentos e a renovação do convite para que continuemos trabalhando juntos pela visibilidade da criação dirigida à inclusão de jovens e crianças no quadro de leitores em formação. Se queremos o país que Lobato sonhou, formado por homens e livros, é preciso considerar que, sem a força dos livros e da leitura, os homens continuarão fechados em si mesmos, sem o horizonte da casa comum que partilhamos.

As crises nacionais e internacionais de hoje focam a economia e ignoram os homens. Há mais de dois milênios, Aristóteles propôs as bases do humano na estética e na ética para alcançar a verdade. Sem elas, em uma construção renovada e permanente, por isso mesmo um clássico no dizer de Calvino, não é possível uma política inclusiva e de respeito para com todas as diferenças.

A literatura que buscamos, vocês criadores e nós leitores, é a revelação do humano. Não queremos uma escola partida. Queremos que tome o partido da justiça – para todos.

 

GELIJ

Memória Selo Cátedra 10

Notícias da avaliação do SELO 2018

Por Denise Ramalho pelo Gelij

Durante o trabalho  em nossa pesquisa, destacamos algumas questões para apresentar aqui,  por considerarmos que são do interesse daqueles que trabalham na cadeia de produção do livro desde a criação de textos e ilustrações até sua edição e  divulgação.

            O primeiro ponto que gostaríamos de abordar é quantitativo. Percebemos uma queda no número de lançamento de 2017 para 2018. Em nossa última edição recebemos cerca de quase 400 títulos, já este ano este número não chegou a trezentos, ainda que maior número de editoras tenham participado da seleção ao Prêmio. A situação da economia do país, bem como a crise que vemos se delinear no setor de venda e, consequentemente, da edição de livros, talvez justifiquem esta retração, mas ela nos indica algum perigo. O fechamento de livrarias, a queda no lançamento de novos títulos nos se afiguram indicadores preocupantes. É necessário pensarmos em estratégias que possam reverter esse quadro, seja no âmbito editorial, em novas práticas de comercialização, seja trabalhando por políticas públicas que ajudem a garantir a cadeia de produção do livro, em extensão e qualidade.  

            Outro aspecto importante, que  chama atenção, está relacionado às escolhas temáticas das obras apreciadas. No ano de 2017, um grande número de livros infantis trazia a discussão de gênero, de novos modelos de família, de diversidade cultural e étnica. Já este ano, os livros destinados ao público infantil abordaram prioritariamente os sentimentos das crianças: medos, perdas, inadequação, angústias de crescer e estar no mundo. Não por coincidência, houve uma maior número de textos utulizando a poesia ou uma prosa poética para este público no ano de 2018. A alternância é importante mas é preciso estar atentos à pluralidade de temas

            Do mesmo modo, nos livros para o público adolescente saíram de cena temáticas ligadas ao mundo da fantasia como sagas, universos distópicos, coexistência de seres mitológicos ou mágicos com jovens contemporâneos e sua realidade. Em seu lugar, surgiram temáticas fortes como depressão, suicídio, morte precoce, solidão, guerras e refugiados – apenas para citar alguns.

Considerando que no PNLD de 2018 estão expressas as temáticas a serem consideradas pertinentes ao edital para seleção dos livros e que muitos destes temas aparecem na produção editada este ano, como já exposto, houve uma preferência por material que se adequasse ao referido edital. Sabemos das dificuldades  por que o mercado editorial está passando, mas  preocupa  uma seleção para publicação estritamente ajustada a um único tipo de demanda. Lançamos esta nossa inquietação como uma proposta de reflexão, pois apesar de extremamente pertinentes e importantes, questionamos o direcionamento institucional da produção, que por sua natureza  tem na singularidade seu valor

            Ainda tratando dos livros juvenis, observamos que se mantém o predomínio de traduções nesse segmento. Mais uma vez compreende-se a escolha, pois a edição tem um referendo de garantia para sua recepção; Contudo parece faltar estímulo a autores nacionais que trabalhem com a realidade da vida juvenil nas  publicações originais brasileiras

            Desejavel seria que houvesse sempre  diversidade de vozes e de temas, que nossos pequenos e jovens leitores pudessem provar do banquete amplo que a literatura lhes pode oferecer.

            Queremos considerar ainda o promissor  surgimento de novas pequenas editoras, editoras independentes. Surgido há algum tempo ,  está se tornando mais forte. Este ano, notamos  o aumento da participação de muitas dessas pequenas editoras que fazem um trabalho personalizado. É possível identificar em suas produções propostas editoriais bem definidas e particulares, o que contribui para a referida diversidade de vozes.

            Gostaríamos de fazer uma sugestão às editoras no sentido de incluirem na biografia dos ilustradores, dados técnicos da criação das imagens, favorecendo o reconhecimento dos recursos e instrumentos utilizados. Estas informações são preciosas para o estudos dos pesquisadores.

            O trabalho pelo livro e pela leitura nem sempre é fácil. Vivemos um tempo  particularmente bem difícil. Ora a crise economica, com efeitos sobre o mercado de trabalho, ora o ataque a autores e obras, numa tentativa de censurar a imaginação e conter as palavras, independente da qualidade literária..  É preciso resistir e não submeter o futuro  dos leitores a condiçoes circunstanciais e preconceituosas. Que  essa breve avaliação, de algum modo, seja proveitosa a nós  e sobretudo a jovens e crianças para que ampliemos os caminhos que levam a uma  Literatura Infantil e Juvenil  cuja adjetivação não seja restritiva mas inclusiva na substantividade do que é artístico e perdurável.

 

 

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