Fala do Prof. Luiz Antonio Coelho ao receber o título de Eminência

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Ontem , em sessão SOLENE o professor Luiz Antonio Coelho, ex-diretor do iiLer/Cátedra Unesco, recebeu da PUC a merecida emerência . Foi homenageado pelo departamento de Artes e Design, nas amorosas palavras da professora Jackeline Farbiarz e agradeceu com um texto de literato que não podemos nos furtar a reproduzir, na íntegra. Todo carinho e reconhecimento por seu trabalho que segue, agora, no Conselho de Desenvolvimento do iiLer.  A todos que colaboram conosco, fazemos partilha de suas palavras.

 
 

” Senhor Reitor e membros do Conselho Universitário da PUC-Rio, colegas e funcionários, amigos e parentes queridos.
Tenho muito a agradecer a todos vocês e, em poucas palavras, desejo expressar o que este evento significa para mim.
Trata-se de mais uma etapa da vida.
A emerência constitui algo que apenas algumas profissões prevêem (além de professor, também autoridades religiosas, ministros e presidentes, por exemplo) e nem todas instituições a adotam. Mesmo aquelas que adotam, não prevalece a mesma percepção que tem a nossa PUC. Nos Estados Unidos, por exemplo, emérito, em geral, significa apenas aposentado, havendo distinções segundo a profissão e a instituição.
Por tamanha deferência que nos faz a PUC, sinto-me honrado, e acredito que os colegas Maura Iglesias (FIL), Maurício Frota (Metrologia) e Pe. Mário França Miranda (TEO), também vivam a emoção pelo insigne agraciamento que recebemos hoje.
Foi nesta PUC que passei a maior parte de minha vida profissional. Aqui ilustrei-me atuando no ensino, pesquisa, extensão e administração, lidando com unidades acadêmicas distintas daquelas onde atuei mais diretamente. Travei com muitas pessoas, de amizades imorredouras que me deram tanto de afeto e ensinamento nesse percurso de mais de 30 anos. Tive a honra de atuar junto a três reitores e seus Vice-reitores, além de decanos e funcionários em diferentes colegiados e níveis administrativos.
Mas o ensinamento maior que tirei disso tudo, na convivência com o outro, com o entorno, a natureza e a realidade, nesses anos, foi fazê-los malhas textuais; lê-los enquanto sistemas simbólicos e sinais expressivos e, assim, compreendê-los melhor. Tenho tentado praticar a leitura, ainda em estado de proto-linguagem e abaixo do nível gramatical das línguas estabelecidas. Sabemos que as línguas, de natureza verbal, bem como as linguagens já codificadas de que dispomos, não dão conta, sozinhas, da complexidade da natureza, do ser humano e de suas relações sociais. Por tais razões, tenho buscado fazer convergir o que adquiri de teoria no mestrado e doutorado em Media Ecology, nos Estados Unidos, com o trabalho desenvolvido no ensino e pesquisa no Departamento de Arte & Design e o consegui em parte (a matriz que produzi nos últimos cinco anos para análise do produto em Design).
A ponte entre os dois campos teóricos fez-se, entretanto, a partir do momento em que convivi com a noção de leitura que se tem na Cátedra UNESCO e no instituto Interdisciplinar de Leitura da PUC-Rio. Logrei observar textualidades em meu entorno e fazer-me texto para tornar objeto de minha própria análise: observar-me de fora como a um livro, o que modificou meu modo de encarar o mundo e agir. Esta foi a síntese da vida a que cheguei nesta Universidade.
Existe sempre a sabedoria nas metáforas dos dizeres populares e quando se afirma que Deus escreve certo por linhas tortas, coloca-se esta acepção de leitura no âmago do eixo hermenêutico-epistemológico. À semelhança do supremo criador, também escrevemos certo por linhas tortas. Muitas vezes o fazemos inconscientemente. Em realidade, ler linhas tortas é aprender a ler nas entre-linhas para além da escritura, para além da realidade sensível. É negociar sentido com o outro, com o entorno, a natureza e a realidade.
Somos seres naturalmente fabuladores e carecemos de mais e novas linguagens para dar conta e otimizar nossas interações (comunicação). Um dos caminhos será o de atentar para nossas produções buscando suas textualidades. A gramática vem como consequência.
Um de nossos maiores problemas na contemporaneidade, em minha opinião, tanto no nível micro quanto macro, vem da incapacidade de lermos as linhas tortas e de enxergar o mundo enquanto texto.”
OBRIGADO!
Rio de Janeiro, 29 de junho de 2017
(Este dia de São Pedro para mim é um dia para não esquecer)
 
Luiz Antonio Coelho