Livros de Colorir … uma reflexão

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Maria Helena Ribeiro

mh2Como praticante, quase compulsiva, dos Livros de Colorir, e curiosa a respeito dos modismos que assolam a cidade e o país, resolvi ligar minhas antenas e afinar meus olhos e ouvidos para tudo que se fala, que se pensa e que se lê sobre esses mal falados livros, seu conteúdo e a relação da sua prática com seus usuários. Considerando-se que são best-sellers, reconhecidos mundialmente, acham-se à disposição muitos artigos, notícias, depoimentos, teses, estatísticas falando sobre seu uso e seu impacto na sociedade. É um desafio teorizar sobre eles. Afirmativas infundadas, muitas dúvidas e desconfianças, tornam a reflexão mais interessante e estimulante.

Fala deles, todo mundo, mas poucos estão habilitados para fazer uma análise profunda sobre sua contribuição para a melhoria do corpus teórico do estudo da imagem e das cores.  Os que mais falam sobre eles são os que nunca tiveram um. Muito poucos podem “falar de cadeira”, como eu, por exemplo, que nesse espaço de tempo – menos de um ano – já colori três livros inteiros: Jardim Secreto, Floresta Encantada e as Mandalas de Gaudi, esse último recebido de presente da Itália.

A desconfiança, muito justa, chegou fortemente ao meu setor no Instituto Interdisciplinar de Leitura da PUC-Rio / Cátedra UNESCO de Leitura. Nesse momento, fui uma espécie de Laboratório e ia trazendo notícias na medida em que me afundava na arte de colorir. Aos poucos, fui produzindo algum estudo em defesa dos livros de colorir, a não possibilidade de que ele pudesse a vir substituir ou competir com os textos escritos, com a boa literatura ou com a boa leitura. A discussão se tornou interdisciplinar, pois, profissionais de artes e design deram subsídios para esse estudo.  Sua contribuição foi fundamental.

mh1 Como estudiosa da área de leitura procurei descobrir o que esses livros, e o ato de colori-los, podem contribuir na formação de leitor, como estímulo à leitura. Que pontos em comum podemos encontrar nas duas atividades: ler e colorir? Em que podem se ajudar? Seriam complementares ou se contrapõem?

Passo a tratar da questão por duas linhas de raciocínio. Em primeiro, pela relação entre escrita e leitura com o ato de colorir onde trato mesmo é da criação pela escolha da cor, isto é, só cromia dentre os elementos básicos da linguagem visual.  Em segundo, refiro-me, além do prazer, à emoção, à criatividade, ao lúdico. Nessas duas reflexões procuro identificar os pontos coincidentes para a formação do leitor.

O primeiro ponto de confluência entre um livro de texto escrito e o de colorir é que ambos são passíveis de leitura.  Ambos são textos, a imagem e a palavra. Ambos têm suas subjetividades, despertam no leitor emoções, sentimentos, ideias novas, criações e autonomia no pensar e no escolher. Ambos desenvolvem a estética, um olhar amplo sobre o mundo, e o prazer de mergulhar (ler) no seu texto.

No início, eu era mais ou menos suspeita para defender seu uso, pois estava absolutamente apaixonada … e viciada!!!  Mas, aos poucos fui recuperando meu senso crítico, característica de uma leitora contumaz. Comecei a fazer minhas considerações. Ao mesmo tempo que refletia sobre o meu ato de colorir simplesmente, observava também seu efeito na minha vida de leitora, no meu tempo de leitura, nas idas às Livrarias, na aquisição de livros. Observava também meu corpo, postura, minha mente, estado emocional, comportamental e, também a qualidade da na minha saúde, de um modo geral. Tirando a sensação de euforia que ficava à noite quando coloria, o que me deixava sem sono mais tempo, no mais, nenhum sinal de prejuízo.

Escutava das pessoas que me viam colorindo reprovações do tipo você está lendo menos, olha a sua coluna, está compulsiva, cuidado com a vista, olha o sono, a ansiedade, etc, etc, etc. Aos poucos, nada acontecia: eu me sentia feliz. Lembrei-me, então, de um artigo escrito por Anfré. J. Gomes – Via: Revista Bula, que dizia: – “Mas onde é que está a novidade disso tudo? Aliás, quem disse que antes da febre dos livros de colorir nós estávamos lendo mais? E que mal existe em um sujeito pintar um livro, fotografar suas páginas e publicar nas redes sociais? O que fazer se um cidadão livre, leve e solto da Silva escolhe investir o seu dinheiro em um livro de colorir e não em um romance aclamado pela crítica? Nada. Nada senão desejar que ele seja feliz e pronto!”

Passada a euforia inicial, passei a descobrir os benefícios para os outros de um modo geral, aos leitores em particular.   Comecei a ver grandes talentos despontando,  a melhora da auto estima de alguns, bom gosto e senso de estética apurados em outros, tudo muito surpreendente!!! Pessoas que não tinham a menor noção do seu potencial, das suas habilidades nas artes plásticas que se alegraram com a descoberta. Outros, relutando com as dificuldades de imagens com muitos detalhes, descobrem-se pacientes e perseverantes. Observei muitos dados de personalidade em algumas pessoas, principalmente a alegria de vencer dificuldades.

Com relação à leitura, considerando seu conceito mais amplo – para além do domínio do código escrito -, indiscutivelmente, a arte de colorir contribui para a formação do leitor pois dá conta de melhorar a atenção, a concentração e a criatividade, atributos para se tornar um bom leitor. Foi também o pai da Psicanálise que falou do princípio do prazer e da realidade, creio que em Formulações sobre os dois princípios de funcionamento mental. Para ele, o aceite da realidade passa pelo jogo com o prazer. A gente aguenta o peso da realidade por momentos de prazer.  Creio que Gofmh4fman trata disso em A representação do Eu na vida cotidiana.

Com essas observações, acabei sendo convidada a fazer uma Oficina, no Projeto “Destrava Línguas”, que é realizado pelo Instituto com os funcionários da PUC-Rio. Pela primeira vez pude dialogar com um grupo de pessoas sobre o ato de colorir. Coloquei-as para colorir e fiquei observando como o processo se dava. Interessante ver as diferenças individuais: seu jeito de colorir, posição das mãos, o ritmo, as escolhas e combinações de cores, o nível de exigência, o capricho e outras formas de se comunicarem com o colorir.

Ao final da sessão de colorir, discutimos as sensações, os sentimentos, as observações, as dificuldades e outras reflexões importantes a se considerar. Por exemplo, concluíram que no ato de colorir se desenvolve a criatividade, se expõe o que se sente, descobre-se como artista, se desestressa, trabalha o equilíbrio e a ansiedade, traz um resgate à infância, faz-se um mergulho no ego (voltar-se para si mesmo) e melhora a concentração.

O mais importante foi ver que, na oficina, identificaram a relação da arte de colorir com a Leitura, e o como os dois podem ser parceiros na formação de leitores.

Nesse texto nada é conclusivo, pelo contrário, é um início de uma pesquisa que pode contemplar vários outros aspectos como por exemplo, a diferença entre a narrativa e o simbólico, entre as diferenças das imagens a ser coloridas, a relação entre o colorir e o pintar, os aspectos históricos da arte de colorir, que me parece vem do século XIX.

Observei, por exemplo, que em diversas cidades do interior não chegaram os livros de colorir com intensidade, muito embora seus moradores já tenham ouvido falar. Não sentem desejo de colorir. Acredito que esse “boom” dos livros de colorir aconteceu mais nas grandes cidades, grandes centros urbanos, em decorrência da necessidade de sublimarmos as grandes demandas do mundo adulto, substituindo-as por uma atividade que acalma, que nos faz mergulhar no interior do nosso eu, que nos faz criança outra vez.

Finalmente, termino esse artigo com a fala do psicólogo   Antônio Carlos Amador Pereira, professor da PUC-SP. O especialista argumenta “que com as tensões do cotidiano, que envolvem trabalho, trânsito, relações, é comum que as pessoas fiquem estressadas. Segundo ele, entre as formas de enfrentar tensões estão as atividades lúdicas”.  Com elas se tira o foco do que motiva a tensão ou o estresse, explicou.

Assim como um bom livro de literatura, o livro de colorir pode nos levar para outros lugares, outras histórias, outras vidas, potencializando nosso imaginário e nos fazendo pessoas melhores.